terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Sono
Às vesperas de seus 26 anos, ele escreve. Escreve porque só assim consegue se expressar. Escreve porque a escrita lhe protege da realidade. Escreve para não viver as próprias verdades.
Reflete sobre o anos idos. Assiste o presente sem o controle-remoto nas mãos. Receia o futuro.
Nunca tinha visto nuvens tão densas. Jamais tinha ouvido trovões tão alucinantes.
Seu grito de dor está preso na garganta, comprimindo suas amídalas. Um gosto amargo escorre por dentro e para fora de si.
Não vê mais cores. O calor é um visitante fugaz. O inverno, um companheiro voraz.
Em seu sono, permanece imóvel, aguardando o dia raiar.
Pássaro-bebê
Numa aldeia distante, vivia um velho ancião muito sábio. Seu nome era Mestre Lux, e sempre recebia visitantes ansiosos por suas palavras de sabedoria.
Alebion, um jovem rapaz dessa aldeia, foi até a casa de Mestre Lux, muito triste e sem motivos para sorrir.
- Meu filho, por que choras?
- Ah, mestre... Não vejo beleza na vida, não vejo razão alguma na existência!
- Pequeno Alebion, você ainda é muito jovem. Não tem porque se preocupar com um assunto tão profundo. Faça o seguinte: vá até a floresta e capture um pássaro-bebê.
- Mas mestre! Nem falei tudo o que queria lhe falar...
- Nem precisa. Vá e depois venha me mostrar seu pássaro.
Alebion fez o que Mestre Lux lhe aconselhara. Desceu a colina em direção à floresta, próxima ao rio Vänskap. Após adentrar à mata, seus sentidos estavam atentos a qualquer movimento... Até que ele avistou vários ninhos, em diversas copas. Subiu em muitos galhos, mas não se encantava por nenhuma ave.
Depois de algum tempo, e exausto pela procura, Alebion avistou um pássaro-bebê caído em um arbusto. Rapidamente, correu ao seu encontro e o retirou dos galhos que o prendiam. Alebion estava maravilhado com essa ave. Ele sabia que ela não era a mais bela, mas sabia que tinha encontrado a ave certa.
Sorridente e empolgado com seu pássaro-bebê, Alebion voltou à casa de Mestre Lux.
- Mestre Lux! Mestre Lux! Olha que lindo pássaro encontrei! É um pássaro-bebê ainda!
- Sim, meu filho, estou vendo. Ele é ainda muito pequeno, menor que você. Precisa de cuidados, de comida e de amor. Você consegue cuidar dele?
- Consigo sim, mestre! Consigo sim!
- Quanto entusiasmo, Alebion! Então venha me visitar depois, quando ele estiver grande. Aliás, já escolheu um nome para ele?
- Já sim, mestre! Seu nome será Adarion.
Alebion não se continha em si, tamanha era sua felicidade. Chegando em casa, colocou Adarion em uma gaiola, deu-lhe comida, água, tratou seus ferimentos... Em agradecimento, Adarion sempre entoava as mais belas canções que poderiam vir de seu canto, e isso trazia mais e mais alegria a Alebion.
Mas, por algum motivo, Adarion não mais cantou. Suas canções eram sem brilho. Sua voz, sem cor. Alebion novamente ficou triste e foi ter com Mestre Lux.
- Mestre Lux, Adarion não quer mais cantar. Não sei o que fazer.
- Liberte-o, meu filho!
- Não, mestre! Adarion não sabe se cuidar sozinho. Eu sempre cuidei dele!
- Alebion, aquela gaiola é muito pequena para Adarion. Você cuidou tão bem dele que ele cresceu forte e saudável. Agora ele precisa de mais espaço. Ele precisa voar!
Relutante, Alebion voltou para casa, pegou a gaiola onde Adarion estava e foi à floresta do rio Vänskap. Ao chegar próximo a uma das margens do rio, ele abriu a gaiola. Adarion abriu suas asas e saltou no ar. Suas penas eram as mais belas entre as aves do céu. Seu vôo era elegante e majestoso. O som que saía de sua voz já não era um mero canto e, sim, um grito de liberdade.
Contente com o que acabara de ver, Alebion subiu à casa de Mestre Lux.
- Mestre, libertei Adarion, como o senhor me disse.
- E o que Adarion fez, meu filho?
- Ele voou, mestre. Percebi que havia muita satisfação e vigor em cada bater de suas asas. Consegui ver beleza nele novamente.
- E o que você acha que Adarion viu em você?
- Em mim, mestre? Não sei o que há para ser visto em mim!
- Pois eu sei. Você cresceu tão forte e tão belo quanto Adarion. Seus cuidados para com ele fizeram com que você aprendesse o valor do tempo, da dedicação e do amor. Não pense que a partida de Adarion seja um ato de ingratidão para com você. Quanto mais alto ele voar, mais alto levará você dentro dele. E todos aqui embaixo verão.
Alebion, um jovem rapaz dessa aldeia, foi até a casa de Mestre Lux, muito triste e sem motivos para sorrir.
- Meu filho, por que choras?
- Ah, mestre... Não vejo beleza na vida, não vejo razão alguma na existência!
- Pequeno Alebion, você ainda é muito jovem. Não tem porque se preocupar com um assunto tão profundo. Faça o seguinte: vá até a floresta e capture um pássaro-bebê.
- Mas mestre! Nem falei tudo o que queria lhe falar...
- Nem precisa. Vá e depois venha me mostrar seu pássaro.
Alebion fez o que Mestre Lux lhe aconselhara. Desceu a colina em direção à floresta, próxima ao rio Vänskap. Após adentrar à mata, seus sentidos estavam atentos a qualquer movimento... Até que ele avistou vários ninhos, em diversas copas. Subiu em muitos galhos, mas não se encantava por nenhuma ave.
Depois de algum tempo, e exausto pela procura, Alebion avistou um pássaro-bebê caído em um arbusto. Rapidamente, correu ao seu encontro e o retirou dos galhos que o prendiam. Alebion estava maravilhado com essa ave. Ele sabia que ela não era a mais bela, mas sabia que tinha encontrado a ave certa.
Sorridente e empolgado com seu pássaro-bebê, Alebion voltou à casa de Mestre Lux.
- Mestre Lux! Mestre Lux! Olha que lindo pássaro encontrei! É um pássaro-bebê ainda!
- Sim, meu filho, estou vendo. Ele é ainda muito pequeno, menor que você. Precisa de cuidados, de comida e de amor. Você consegue cuidar dele?
- Consigo sim, mestre! Consigo sim!
- Quanto entusiasmo, Alebion! Então venha me visitar depois, quando ele estiver grande. Aliás, já escolheu um nome para ele?
- Já sim, mestre! Seu nome será Adarion.
Alebion não se continha em si, tamanha era sua felicidade. Chegando em casa, colocou Adarion em uma gaiola, deu-lhe comida, água, tratou seus ferimentos... Em agradecimento, Adarion sempre entoava as mais belas canções que poderiam vir de seu canto, e isso trazia mais e mais alegria a Alebion.
Mas, por algum motivo, Adarion não mais cantou. Suas canções eram sem brilho. Sua voz, sem cor. Alebion novamente ficou triste e foi ter com Mestre Lux.
- Mestre Lux, Adarion não quer mais cantar. Não sei o que fazer.
- Liberte-o, meu filho!
- Não, mestre! Adarion não sabe se cuidar sozinho. Eu sempre cuidei dele!
- Alebion, aquela gaiola é muito pequena para Adarion. Você cuidou tão bem dele que ele cresceu forte e saudável. Agora ele precisa de mais espaço. Ele precisa voar!
Relutante, Alebion voltou para casa, pegou a gaiola onde Adarion estava e foi à floresta do rio Vänskap. Ao chegar próximo a uma das margens do rio, ele abriu a gaiola. Adarion abriu suas asas e saltou no ar. Suas penas eram as mais belas entre as aves do céu. Seu vôo era elegante e majestoso. O som que saía de sua voz já não era um mero canto e, sim, um grito de liberdade.
Contente com o que acabara de ver, Alebion subiu à casa de Mestre Lux.
- Mestre, libertei Adarion, como o senhor me disse.
- E o que Adarion fez, meu filho?
- Ele voou, mestre. Percebi que havia muita satisfação e vigor em cada bater de suas asas. Consegui ver beleza nele novamente.
- E o que você acha que Adarion viu em você?
- Em mim, mestre? Não sei o que há para ser visto em mim!
- Pois eu sei. Você cresceu tão forte e tão belo quanto Adarion. Seus cuidados para com ele fizeram com que você aprendesse o valor do tempo, da dedicação e do amor. Não pense que a partida de Adarion seja um ato de ingratidão para com você. Quanto mais alto ele voar, mais alto levará você dentro dele. E todos aqui embaixo verão.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Eu, por mim mesmo
Sou o João Rangel, o Joãozinho, o Jota, o Little. Sou pequeno mesmo, mas só na minha altura. Por dentro, guardo um mundo grandioso, de fantasias e desejos. Viajo nos meus devaneios piscianos. Faço projeções sobre tudo e todos a minha volta. Se algo está pra acontecer, meu corpo me revela, inclusive em sonhos.
Como um bom peixinho, também sei nadar em águas revoltas. Mas nadar cansa, às vezes. Daí, fico parado, nas ondinhas do mar, fugindo do tubarão que quer me afundar, da gaivota que quer me levar às alturas, e do anzol do pescador que quer me devorar.
É uma vida arriscada essa minha, mas tenho o mar inteiro para nadar. Não preciso ficar preso no seu aquário.
Como um bom peixinho, também sei nadar em águas revoltas. Mas nadar cansa, às vezes. Daí, fico parado, nas ondinhas do mar, fugindo do tubarão que quer me afundar, da gaivota que quer me levar às alturas, e do anzol do pescador que quer me devorar.
É uma vida arriscada essa minha, mas tenho o mar inteiro para nadar. Não preciso ficar preso no seu aquário.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Tantos tempos
Tempo... Um aliado... Um inimigo... De repente, em um tempo de solidão, trouxe-me companhia. Dediquei-lhe um tempo tão precioso que ela acabou se tornando amor. Um amor conveniente, convergente, convivente e consciente.
Um tempo difícil sobreviria. Passei por tormentas, e tormentos, que até mesmo a mente forte que eu julgava ter foi abalada e ferida. Meu tempo de dedicação tornou-se escasso. E caí num impasse: a escolha cruel entre o amor que nos dá à luz e o amor que nos dá luz.
Chegara o tempo de encenar. Atuei como um verdadeiro ator que, com maestria, jamais deixa qualquer um de seus públicos insatisfeitos. Mas nem Cristo agradou, nem agrada, a todos.
Sozinho, vi-me outra vez. Embora por pouco tempo, pareceu-me uma eternidade no breu. Qualquer relance de meu luzeiro era motivo para momentos de euforia, assim como seu apagar também me apagava. E em lágrimas me afogava.
O tempo passara. E quando já estava me acostumando à escuridão, minha luz raiou, como um amanhecer. Meu dia ficou tão claro! Eu não via nada mais além da luz.
De repente, o calor começou a diminuir, a luz já não era tão radiante... E por mais que eu corresse atrás dessa estrela, por mais que a amasse, ela partiu. Chegara o crepúsculo...
Assinar:
Comentários (Atom)


